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ENTREVISTA COOL TALKS PBH: Alejandro Ramiréz: “O Brasil é um ponto de referência na região, porque o país conta com um setor de refrigeração bem desenvolvido e está inovando em tecnologia e capacitação de pessoas”

Entrevista

 

Alejandro Ramiréz é Senior Programme Management Officer da Secretaria do Fundo Multilateral para Implementação do Protocolo de Montreal, que desempenha um papel fundamental na coordenação do apoio financeiro e técnico aos países em desenvolvimento como o Brasil (Artigo 5) para a eliminação das substâncias que destroem a Camada de Ozônio e impactam na Mudança do Clima.

 

Por favor, fale um pouco do seu trabalho no Fundo Multilateral…. e o que representa esta sua primeira visita oficial ao Brasil (Missão de 23 a 26 de fevereiro)?

A secretaria do Fundo Multilateral encarrega-se de estabelecer as políticas para o financiamento de projetos para a redução de substâncias controladas e a revisão de projetos. Para o nosso trabalho, esta visita é muito importante porque podemos ter a oportunidade de ver em primeira mão o que está acontecendo nos países e poder entender quais são os desafios que os setores de refrigeração e ar condicionado, os governos, as associações e os institutos de formação estão enfrentando para implementar os projetos de eliminação de HCFCs e de redução de HFCs.

E, também, como os países estão pensando em aproveitar, por exemplo, as oportunidades de também fazer uma contribuição para a redução do uso de energia enquanto se eliminam os HFCs, e o que isso implica.

Outro ponto importante é verificar a adoção de tecnologias de baixo potencial de aquecimento global (GWP), o que implica em ações, por exemplo, no setor de serviços, de formação e de certificação de técnicos/as.

Para nós, ter esta oportunidade é muito valiosa porque pode nos ajudar não somente a facilitar a condução de projetos, mas também a pensar em políticas futuras de financiamento, como adaptá-las e como nos assegurarmos de que realmente cubram os desafios que os países têm.

Temos feito visitas a outros países também e podemos comparar e ver quais são os problemas comuns que os países têm e poder dar prioridade a esses desafios.

 

O senhor esteve no Brasil há 15 anos e está retornando agora. Olhando para a jornada brasileira desde a eliminação dos CFCs até os desafios atuais com os HCFCs e HFCs, como o senhor avalia a evolução do setor de refrigeração e ar condicionado (AVACR) no país?

Bom, depois de 15 anos é um prazer ver o progresso que foi alcançado. Nesta semana tive a oportunidade de escutar a estratégia que o país está desenhando para o KIP (Kigali Implementation Plan, Programa Brasileiro de Redução do Consumo dos HFCs – Programa HFCs) e saber que já nos setores de refrigeração doméstica e refrigeração comercial, nos novos equipamentos, os HCFCs já foram eliminados e que até o final da Etapa III do PBH a eliminação será total. É um progresso incrível.

Também no setor de ar condicionado residencial, pude observar que as empresas já estão começando a fazer uma transição para substâncias transitórias, o que também é um progresso, porque vão reduzir as emissões de gases tremendamente, já que o potencial de aquecimento global da substância que estão usando de forma transitória (R-32) é bem menor.

Então, este é um passo para o longo prazo, e eu acho que no KIP é preciso pensar no longo prazo, porque as atividades que devem ser feitas são de transformação do setor, de transformação da tecnologia. Há muitas mudanças que estão ocorrendo também em nível digital e em nível do uso de ferramentas novas que podem ajudar o setor.

A quantidade de trabalho para realizar essas mudanças é grande, mas o país tem a capacidade de fazê-lo. Nesta Missão, tive a oportunidade de visitar algumas companhias e ver a inovação que eles estão fazendo.

Também foi positivo poder ver projetos que se executaram com o PBH e ver as companhias que se converteram. Não somente fizeram a conversão com os fundos que foram proporcionados pelo Fundo Multilateral, mas continuaram fazendo inovação adicional com seus próprios recursos e chegaram muito mais longe do que era o projeto.

O mesmo ocorreu com os centros de formação (as escolas parcerias do PBH). No centro de formação vimos, por exemplo, que está começando um projeto-piloto para a certificação de técnicos/as, e estes são pontos que são de longo prazo, porque uma vez que a certificação está estabelecida, já pode ser aplicada a longo prazo.

 

Alejandro Ramírez, ao centro, durante a missão, em visita ao laboratório modelo “mini supermercado”, realizado no âmbito do PBH-Protocolo de Montreal, na ETP, em Curitiba-PR

 

Durante a missão, o senhor visitou a Escola Técnica Profissional (ETP) em Curitiba, conhecendo o laboratório no modelo “mini supermercado” com fluidos refrigerantes naturais (R-290 e R-744). O que achou? Qual a importância de projetos de capacitação como estes para garantir que a transição tecnológica seja segura e eficiente na ponta, com os técnicos/as?

Sim. O laboratório no modelo “mini supermercado” que têm aqui é especial. É um passo na direção correta porque, como vimos nas empresas de manufatura, elas vão nessa direção, e no instituto de formação (a escola ETP) já têm o minimercado para poder explicar aos técnicos/as como essa tecnologia que virá poderá ser utilizada.

 

O Sr. considera os novos laboratórios com CO2 e Propano, criados no âmbito do PBH, um exemplo para outros países?

Sim, claro, é um exemplo para outros países. Creio que profissionais de outros países irão vir e ver o que está sendo feito aqui Brasil. Nestes duas escolas (ETP/Curitiba e SENAI Oscar Rodrigues Alves/São Paulo) foi muito ilustrativo. Na visita à ETP, fomos informados que técnicos/as de outros países já vieram receber a formação aqui.

Portanto, o Brasil é um ponto de referência, porque o Brasil também tem muita manufatura e, ao ter manufatura, estão inovando todo o tempo na tecnologia. Para os outros países da região, vir ver o que está acontecendo no Brasil é sempre uma vantagem.

 

O Sr. também visitou a Escola SENAI Oscar Rodrigues Alvez em São Paulo, e pode ver o novo laboratório de Ar Condicionado com Propano no qual é ministrado o curso para uso seguro de fluidos refrigerantes inflamáveis, criado no âmbito do PBH. O que achou desta visita?

Creio que é um passo correto já começar a ter os equipamentos com as substâncias de baixo aquecimento global para os alunos, para que eles se familiarizem, para que vejam quais são as ferramentas que necessitam para fazer o trabalho e para que possam aprender as práticas corretas para fazer a manutenção desses equipamentos.

Essas tecnologias de baixo potencial de aquecimento global têm características que são um pouco diferentes dos HCFCs e dos HFCs. Por exemplo, os hidrocarbonetos (como o Propano) têm a inflamabilidade que tem que ser manejada de forma correta e que também, provavelmente, requer alguma regulação que ajude nos assuntos de padrões, transporte, armazenamento e manejo durante toda a cadeia de uso dos fluidos refrigerantes.

O Brasil está fazendo um bom trabalho em olhar para frente e começar todos esses pontos de formação. E não somente de formação, porque o Brasil também está trabalhando em padrões (normas técnicas) agora, a tempo, sem esperar que a tecnologia já esteja 100% no mercado.

 

A Emenda de Kigali é descrita como uma tarefa nova, um processo de aprendizagem para todos. Quais são os principais desafios que o Fundo identifica para o Brasil na fase inicial do Programa HFCs, como um país que pode servir de modelo para outros países (especialmente países em desenvolvimento, do Artigo 5)?

Creio que um dos principais desafios para o Brasil e para muitos países é o manejo dos dados, o entendimento das importações, das misturas. Uma das diferenças entre o controle dos HFCs e dos HCFCs é a quantidade de substâncias controladas. E não somente, há substâncias que estão controladas, mas estão sendo usadas como alternativas a outras substâncias controladas. É mais complexo.

Muitas vezes essas substâncias são parte de misturas, que podem estar sendo misturadas dentro do país. Dessa forma, o entendimento desse mapa de substâncias e de fluxos é muito difícil. Creio que na Etapa I do KIP (Programa HFCs), para todos os países, mas especialmente para os maiores, este é um dos desafios para poder entender qual é a situação.

Também creio que o trabalho no setor de serviços em refrigeração é um desafio, mas há muita experiência por parte dos HCFCs (com o PBH) que já estão sendo feitos (como todas as parcerias setoriais e privadas, com indústrias e escolas). Então, passar do controle dos HCFCs aos HFCs é mais fácil porque essas alianças já estão estabelecidas, como os centros de formação (na ETP e SENAI-SP) que vimos. Não é começar de novo, é continuação. Essa parte é mais fácil.

Chegar a 10% de redução no ano de 2029 também pode ser um desafio, dependendo de qual é a tendência de consumo nos países, e por isso os dados são importantes.

Um dos desafios que ocorreu nos anos da linha de base, que é 2020-2022, foi a pandemia, porque a pandemia baixou o consumo de forma artificial e depois da pandemia o consumo voltou a subir. Esses padrões de consumo são difíceis de entender. Por isso os dados são fundamentais.

Outro desafio é a disponibilidade de substâncias alternativas e de componentes. Pode ser um problema dependendo da aplicação.

 

Então, um grande desafio do KIP no mundo e, portanto, do Programa HFCs no Brasil é manter o consumo na fase de transição…

Sim, por exemplo, alternativas que são difíceis de conseguir no mercado neste momento poderiam ser um desafio. E assuntos relacionados com a cadeia de distribuição.

Neste caso, creio que o Brasil está em uma situação de vantagem e que, ao começar o Brasil a trabalhar no KIP, não somente vai ajudar o Brasil, mas também os países da região, porque vai criar uma demanda e mandar um sinal ao mercado bastante grande da direção que se vai tomar. Diversos países que neste momento podem estar tendo problemas de provisionamento de substâncias alternativas e de componentes podem se beneficiar quando o Brasil começar no KIP, no Programa HFCs.

 

Com cerca de 140 milhões de dólares destinados a projetos no Brasil, quais setores ou iniciativas — centros de treinamento, projetos — o senhor considera que tiveram o maior impacto do Protocolo de Montreal até agora? Sabemos que todos são importantes, mas tem algo que o senhor poderia destacar?

Sim, posso destacar muitas ações. Como falou, todas são importantes e talvez não se possa fazer uma sem fazer as outras. Não podemos mudar a manufatura se não treinarmos os técnicos/as. Não podemos treinar os técnicos/as, se não trouxermos nova tecnologia. E se não existissem normas?  Dessa forma, todas as ações estão relacionadas, conectadas e são importantes.

A lição aprendida, ou o que se pode dizer do Brasil, é que em todas as áreas tem havido um bom progresso.

Mas uma das coisas a destacar é a forma como o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o IBAMA trabalham juntos para fazer a normatização e o controle das substâncias. Isso é fundamental e tem sido a base e o pilar para ter uma base de trabalho (nas ações relacionadas ao Protocolo de Montreal).

Depois, destaco as parcerias que foram feitas entre setor privado, governo e centros de formação (escolas parceiras do PBH), que são muito importantes porque todos têm que estar coordenados.

No caso do Brasil, o que se faz no setor de serviços e o que se fez no setor de manufatura tem sido complementar. Talvez um dos setores que não é refrigeração e ar condicionado, onde também se fez um trabalho que é notável, e há que reconhecer, é o das espumas, que é um setor onde se fez a eliminação total dos HCFCs, ao ponto que já não há nenhum projeto porque eles introduziram alternativas já de baixo potencial de aquecimento global. No caso das espumas já passaram a uma solução final.

Também os projetos de refrigeração comercial, como as companhias que tive a oportunidade de visitar, fizeram um trabalho excelente e vai ter um impacto também para os HFCs, porque eles conseguiram introduzir alternativas de baixo GWP, como por exemplo o CO₂ com hidrocarbonetos em sistemas cascata. Isso já tem um impacto para o Programa HFC.

E a formação de técnicos/as, a parceria que têm com o SENAI (e outras escolas técnicas), que alcançou um impacto significativo no número de técnicos/as capacitados no país. Creio que isso tem que continuar e tem que expandir porque a formação vai ser fundamental.

Foram assentadas as bases para continuar trabalhando e creio que há de se pensar no longo prazo. Este é um trabalho para os próximos 15 anos e não duvidar em fazer coisas que parecem difíceis porque vão levar vários anos, por exemplo, como a certificação. A certificação é um projeto de anos, mas uma vez que esteja criada, vai marcar uma diferença importante para o país.

 

O Brasil é conhecido como um membro valioso do comitê do Fundo. Como essa atuação política ajudou o Brasil a abrir novas janelas que beneficiam o país, mas não só o país, outros em desenvolvimento?

Em nível do Comitê Executivo, o Brasil tem sido um membro importante. O Brasil tem estado presente em todas as reuniões, seja como membro ou como membro cooptado, e o Brasil tem uma representação de muito alto nível que tem sido fundamental nas discussões.

Quando há processos difíceis, o Brasil sempre está presente nas discussões dos grupos de contato, nas discussões nos corredores, tentando representar e defender o ponto de vista dos países (em desenvolvimento) do Artigo 5. Isso é muito importante para chegar a soluções.

Por exemplo, nas discussões sobre as diretrizes de financiamento de HCFCs, o Brasil esteve até o último momento no grupo de contato chegando até os últimos pontos de negociação de números. O mesmo para a discussão das diretrizes para financiamento de HFC e, também, nos temas novos de Kigali, como por exemplo as janelas de financiamento, que têm requerido muita criatividade por parte dos países do Artigo 5 e dos países do Artigo 2 (países desenvolvidos e financiadores) para poder desenhar estas janelas para dar oportunidades adicionais aos países (em desenvolvimento).

O papel do Brasil é importante no comitê e tem mostrado os resultados, porque pudemos ter, por exemplo, decisões sobre a preparação de inventários sobre substâncias controladas que não são desejadas, que é parte da gestão do ciclo de vida de fluidos refrigerantes (Life Cycle Refrigerant Management), e, também, decisões sobre oportunidades de benefícios climáticos na eficiência energética, tanto para o setor de serviços como também para o setor de manufatura.

A eficiência energética é um campo importante porque a eliminação dos HFCs vai permitir uma transformação da tecnologia, e ignorar a eficiência energética enquanto se faz isso seria um erro. Então, é importante tê-la em conta.

 

Qual o resultado, o legado, de toda essa sua visita (missão) ao Brasil?

Creio que um dos resultados desta missão é para nós, na Secretaria, é ter um melhor entendimento em primeira mão por parte dos atores principais de quais são os desafios que eles estão tendo. E isso vai nos ajudar no estabelecimento de políticas futuras de financiamento para nos assegurarmos de que a assistência do Fundo Multilateral chegue aonde tem que chegar e possa ter, digamos, ter o impacto que queremos que tenha.

Nesse sentido, os diálogos que temos tido aqui no Brasil, a aprendizagem que eu tive pessoalmente nesta missão, creio que tudo vai ser muito útil para o nosso trabalho na Secretaria.

Em nível de legado, creio que para o Brasil, ter a aprovação de seu KIP (futuro Programa HFCs) neste ano (na 98a reunião do Comitê Executivo) vai ser um ponto de inflexão importante no trabalho da execução da Emenda de Kigali.

E, creio, que o que logrei ver nesta missão estratégia, que foi desenhada por parte do governo com a assistência das agências (PNUD, UNIDO e GIZ) vai na direção correta e o Brasil vai ser um ator fundamental na execução da Emenda de Kigali.

Veja matéria completa sobre a visita de Alejandro Ramiréz, da Secretaria do Fundo Multilateral para Implementação do Protocolo de Montreal, no País.

COOL TALKS PBH – Por Susana Ferraz, jornalista, assessora de comunicação integrada da GIZ_PBH (Sete Estrelas Comunicação).

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