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ENTREVISTA COOL TALKS PBH – Leonardo Cozac: “Precisamos falar de ‘Qualidade do Ar Interno’ porque precisamos cuidar do ar que a gente respira! “

Entrevista

 

Leonardo Cozac é engenheiro, CEO da empresa Conforlab, e presidente da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (ABRAVA), grande parceira do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs (PBH). Nesta entrevista, ele fala sobre seu trabalho voltado à Qualidade do Ar Interno (Q.A.I.) e da liderança da maior associação do setor AVACR da América Latina.

 

  1. Por favor, fale um pouco sobre carreira e seu trabalho na engenharia e como empresário.

Eu segui os passos de meu pai, João Francisco (82 anos), engenheiro mecânico. Ele sempre foi meu maior exemplo. Eu atuo na nossa empresa, a Conforlab Engenharia Ambiental, desde os meus 15 anos (estou prestes a completar 52 anos). Embora tenha formação em engenharia civil (sempre gostei de construir coisas), minha carreira sempre foi focada na climatização.

Antes, nossa empresa fazia um serviço na área de manutenção, complementar à manutenção de sistemas de ar condicionado, que é muito específico, fazendo o tratamento de água de grandes sistemas de ar-condicionado em shoppings, hotéis, grandes edifícios, etc. Este começo da nossa empresa tem tudo a ver com o nosso setor hoje, porque a boa qualidade da água é muito importante para os sistemas de climatização, como os de grandes supermercados, por exemplo.

Assim, nossa empresa foi-se especializando em serviços ligados à climatização. Hoje temos um portfólio de cerca de 15 serviços diferentes, todos ligados a essa área de gestão predial (análise da qualidade do ar interno (Q.A.I.), análise de fluidos refrigerantes, tratamento de água, etc.).

 

  1. O tema Qualidade do Ar Interno (Q.A.I.) ganhou muita força na sociedade depois da Pandemia (dezembro de 2019 a maio de 2023). Poderia falar a respeito?

Sim, com a pandemia as pessoas começaram a perceber que o ar que respiramos precisa ser cuidado. É isso que motivou nossa história e é por isso que eu sempre trabalhei na nossa empresa, com meu pai.

Quando a gente começou, pouco se falava de qualidade do ar, e até da qualidade da água. Nós trouxemos muitas novidades em sistemas e equipamentos das feiras que visitamos nos Estados Unidos, como a AHR Expo, por exemplo. Este contato internacional, especialmente a partir dos anos 90, acabou nos levando para o mundo de qualidade do ar, que estava nascendo no Brasil e no mundo.

Nós somos pioneiros nessa área. Em 1996 a gente ajudou a criar o primeiro grupo setorial para estudar esse assunto. Sempre acreditei no poder na mobilização do setor e na importância de as empresas participarem das discussões setoriais, para apoiarem a evolução do mercado.

 

  1. Foi assim que começou o Departamento de Qualidade do Ar da ABRAVA, certo?

O Departamento Nacional de Qualidade do Ar Interno da ABRAVA, conhecido como Qualindoor, foi fundado em 2008. O então presidente da ABRAVA, João Roberto Minozzo, sabendo da nossa liderança, das iniciativas sobre qualidade do ar, limpeza de duto, etc., e do meu conhecimento técnico, me convidou para criar o departamento. Eu reuni vários players da área para juntos, neste grupo de trabalho, criarmos orientações para o mercado e divulgá-las, por meio de eventos técnicos e educativos.

Foi aí que a Q.A.I.  começou a ganhar importância na sociedade, ficando ainda mais evidente na pandemia. É um tema que faz sentido para parte da sociedade, que os órgãos reguladores compreendem. Mas me pergunto: Será que o consumidor final, entende?  O cliente está falando disso?

 

  1. Qual a sua visão? O sr. acha que hoje já faz sentido para os consumidores falar em A.I.?

Eu acho que faz todo o sentido, mas, infelizmente, esse tema ainda não é do conhecimento dos consumidores em geral. Temos um desafio pela frente.

Precisamos falar de Q.A.I. porque precisamos cuidar do ar que a gente respira! Note que geralmente passamos 80% ou mais do dia em ambientes fechados, seja na nossa casa ou no escritório. E, ainda mais com a pandemia, as discussões sobre manter a ventilação natural, deixar ou não as janelas abertas, e cuidar de fato da qualidade do ar interno, ficaram mais presentes, mas falta muita informação.

O problema da ventilação natural, por exemplo, é quando você tem um ar externo poluído. Isto que as pessoas não percebem.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 99% da população mundial respira ar que excede os limites de qualidade recomendados. Esse ar insalubre contém altos níveis de material particulado fino e dióxido de nitrogênio, capazes de causar impactos graves à saúde, como problemas respiratórios, cardiovasculares e cerebrovasculares.

Além da poluição (por queima de combustíveis fósseis de carros, indústrias, etc.) que encontramos nas metrópoles e grandes centros, aqui no Brasil temos muitas cidades, de todos os tamanhos, afetadas por incêndios, as chamadas “queimadas”, durante vários meses no ano.

Trata-se de um grave problema de saúde pública, porque as casas, assim como os hospitais, os escritórios, as academias, as escolas, etc., não estão preparados para proteger as pessoas da poluição do ar.

Isto porque, infelizmente, a sociedade ainda não tem de fato a consciência sobre a importância da Q.A.I, assim como já tem em relação à qualidade da água, por exemplo. As casas não são construídas para proteger as pessoas dessa maneira.

Então, é um grande desafio ainda fazer as pessoas perceberem. As pessoas, em geral, os consumidores, os clientes dos sistemas de ar-condicionado (principalmente o split), não percebem.  Elas acham, por exemplo, normal, as escolas não terem sistemas de climatização preparados para a renovação do ar. Acham normal dezenas de crianças ficarem em uma sala fechada no inverno, respirando o mesmo ar. Isso é inaceitável.

 

  1. Como solucionar esses problemas de falta de Q.A.I? O que impede a maior utilização de sistema de climatização com renovação do ar?

Tais deficiências de renovação de ar podem ser facilmente resolvidas com a ventilação mecânica. Há muitos profissionais (inclusive técnicos/as de refrigeração e climatização) que não sabem disso. São projetos simples que proporcionam a troca de ar do ambiente a cada 10 minutos. Mas como temos muitos imóveis antigos, é preciso atentar para esse problema e criar formas de a sociedade resolvê-lo. No caso das Escolas Estaduais de São Paulo, por exemplo, o Estado já prevê isso em imóveis novos, mas há milhares de imóveis antigos em uso. O problema é gigantesco.

Outro grande problema do nosso setor é o uso de aparelhos de ar condicionado residenciais de pequeno porte (os splits) em ambientes de uso coletivo sem o devido projeto, fora das normas técnicas – o produto mais vendido no Brasil hoje. Esses equipamentos, utilizados por igrejas, academias, restaurantes, não renovam o ar, só circulam o mesmo ar interno. Não têm ventilação.

No momento da instalação, é fundamental que o projeto contemple também um sistema mecânico de ventilação interna, que custará a mais cerca de 15% do sistema mini-split. Por isso, o cliente precisa saber, para já solicitar o projeto certo, para os profissionais certos. Isso poderá evitar acidentes graves e até salvar vidas.

 

  1. Então, o sr. afirma que um sistema eficiente de ventilação mecânica pode salvar vidas?

Mas sem dúvida nenhuma! A maior parte das pessoas acredita credita que, ao manter o ambiente fechado e frio, isola-se da poluição da cidade. Mas esquecem que as próprias pessoas, respirando no mesmo ambiente, consumindo oxigênio e liberando gás carbônico, também o poluem.

 

  1. Como vencer o desafio de tornar o tema Q.A.I mais presente para toda a sociedade e assim solucionar esses problemas crônicos?

Nós da ABRAVA, do Qualindoor, acreditamos que a forma de vencer esse grande desafio é a informação, a conscientização, evidenciando como esse tema é fundamental para a sociedade hoje. Assim como cuidados da qualidade dos alimentos e da água, precisamos cuidar também da qualidade do ar!

Nossa estratégia é evidenciar que o nosso foco, como indústria, é tornar o Q.A.I. um tema de discussão da sociedade, tirando o foco dos equipamentos (não se trata de vender esse ou aquele equipamento), e colocando o foco na saúde pública, na qualidade do ar.  Por isso, vamos divulgar cada vez mais esse tema por meio dos formadores de opinião, dos influenciadores, dos especialistas, como arquitetos, médicos, gestores públicos, jornalistas, entre outros.

 

Cozac assinando o pacto global pela Qualidade do Ar Interno e, ao lado, com demais integrantes da comitiva brasileira | Foto: Divulgação

 

  1. O sr. foi nomeado, em setembro, comissário da recém-lançada Global Commission on Healthy Indoor Air. Qual a importância dessa nova comissão, sob a sua gestão, e que frutos pode trazer para o Brasil e o mundo?

Esse problema da falta de conhecimento sobre o tema Q.A.I não é só do Brasil. O mundo todo passa por isso, trata-se de uma evolução sanitária.

A sociedade moderna aprendeu a cuidar dos alimentos há cerca de 200 anos. Aprendeu a cozinhar e a refrigerar. Da mesma forma aconteceu com o saneamento, básico, há cerca de 100 anos, quando ainda não existiam banheiros dentro das casas, nem água tratada. Por isso, doenças mataram milhões de pessoas.

Portanto, nós estamos na fase de cuidar do ar que respiramos. Em nível global há cerca de 20 anos ou 25 anos começou a se pesquisar sobre o assunto. E hoje temos evidências científicas suficientes que comprovam a necessidade de focarmos na Q.A.I.

A Comissão Global sobre Ar Interior Saudável é uma grande iniciativa lançada em setembro de 2025, durante a Conferência Geral da ONU, liderada pelo International WELL Building Institute (IWBI), com o objetivo de combater a crise de saúde pública gerada pela má qualidade do ar em ambientes internos (onde passamos 90% do tempo). Nela, estão reunidas várias pessoas estudiosas, representantes de mais de 60 países, como o Brasil. Então, a nossa missão agora, como comissário, é levar essas informações para a sociedade em geral, para as pessoas comuns, os consumidores, e, também, encontrar formas de incluir os temas e ações de Q.A.I. nas agendas e planejamentos estruturais de cada país, com ações governamentais efetivas (leis, regulamentos, códigos, etc.).

 

  1. Por favor, fale da sua chegada à presidência da ABRAVA e dos maiores desafios e oportunidades para a entidade e o setor?

Eu estava atuando como presidente da Brasindoor, Sociedade Brasileira de Meio Ambiente e Controle da Qualidade do Ar de Interiores (hoje sou 2º tesoureiro), com uma agenda específica nossa, e, também, no departamento Qualindoor, da ABRAVA. Foi quando eu fui convidado pelo (antigo) conselho da ABRAVA, para assumir a presidência do conselho administrativo em uma nova gestão (e na sequência, também a presidência executiva), com uma nova mentalidade, para implementar projetos que modernizariam a entidade, que tem mais de 60 anos, e tem uma ação multidisciplinar (com vários segmentos dentro do AVACR), bem abrangente.

Sem dúvida, é um grande desafio. Mas quando eu vejo um grande desafio, eu com minha visão de engenharia, de construção, já vejo soluções. Por isso, convidamos novas pessoas para integrar a entidade.

Hoje temos um plano estratégico para três anos (Gestão 2025-2028), bem estruturado e com metas bem definidas, para atender aos mais diferentes interesses de todos os associados. Nossa chapa, denominada ABRAVA 360, assumiu com o compromisso de impulsionar o crescimento sustentável do setor AVACR no Brasil, com foco em três bandeiras principais: qualidade do ar, segurança alimentar e descarbonização.

Então, nós estamos trabalhando em seis pilares, que são: Comunicação, Educação e Capacitação, Gestão Organizacional, Advocacy, Implementação e Financeiro. É um desafio muito bom, que traz muito prazer. Estamos contentes com os resultados alcançados até agora.

 

  1. A sua gestão inovou trazendo na chapa, pela primeira vez na história da entidade, uma vice-presidente mulher. Foi intencional?

Sim, essa era uma preocupação que eu tinha, de abrir mais espaços para as mulheres na entidade. A escolha da Priscila Baioco já foi dentro da estratégia de modernização da entidade. A Priscila foi escolhida não apenas por ser mulher, mas por ser uma profissional muito competente e trabalhadora!

Tenho orgulho do trabalho realizado pelo Comitê de Mulheres da ABRAVA, desde a gestão inicial até hoje (com a Priscila, a Joana, a Juliana e toda a equipe da ABRAVA), só vem evoluindo. Eu vou nas reuniões do Comitê e aprendo muito.

Nós homens temos muito que aprender com as mulheres no AVACR, para diminuir o preconceito. A gente não tem ideia do que as mulheres passam no dia a dia.

É um orgulho ver todo o trabalho que vem sendo realizado para deixar nosso setor cada vez mais aberto e atraente para todas as mulheres terem seu espaço para atuar e se manifestar. Temos muito a evoluir, assim como a sociedade, não só em questões de igualdade de gênero, mas também de raça, cor, sexo, idade.

 

Cozac, durante homenagem a uma das famílias homenageadas pela Campanha “Família Refrigeração”, parceria de sucesso ABRAVA/MMA/GIZ.

 

  1. Em uma iniciativa inédita, ABRAVA, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e GIZ promoveram no ano passado a campanha “Família Refrigeração”, que culminou com a homenagem de dez famílias do setor AVACR na FEBRAVA 2025 (foto com uma das famílias homenageadas acima). O projeto destacou histórias de empreendedorismo e dedicação, evidenciando que o crescimento do setor caminha lado a lado com a adoção das Boas Práticas em Refrigeração. Por favor, fale dessa iniciativa.

Foi sensacional! Ficamos surpresos com a quantidade de famílias do setor que aderiram e enviaram suas histórias. Eu acho que ninguém imaginava assistir a tantas famílias, com lindas histórias no nosso setor.  Foi muito bacana ter famílias de todas as partes do Brasil e poder homenageá-las.

E é por isso que vamos continuar com essa Campanha (e com a parceria MMA e GIZ) na Febrava Rio 2026. Queremos que muitas mais famílias que focam nas boas práticas em refrigeração e climatização tenham suas histórias contadas e sejam homenageadas.

 

Por favor, complemente as frases:

Eu gosto do meu trabalho com foco na Qualidade do Ar Interno…. porque a Q.A.I impacta diretamente na saúde e na qualidade de vida das pessoas. Esse é o grande propósito que nos move! A boa qualidade do ar interno pode evitar doenças e salvar vidas!

Minha maior expectativa para o setor AVACR nos próximos anos é…  deixar marcado para toda a sociedade o quanto o nosso setor é essencial. A gente já começou a fazer isso, desmistificando como o setor é visto, especialmente no caso dos aparelhos de ar condicionado. Nosso setor é essencial para a sociedade, para economia, para vida das pessoas… seja nos hospitais, no transporte de alimentos, na conservação da refrigeração de vacinas e na fabricação de tantos insumos e produtos.

O principal desafio do Brasil e do mundo para ampliar as ações com foco na Qualidade do Ar Interno é…  Como nós temos muita informação, muitas pesquisas sobre Q.A.I., agora nós temos que levar todo esse conhecimento para os formadores de opinião, para ampliar a comunicação. Essa informação precisa chegar aos médicos, arquitetos, jornalistas, influenciadores, gestores públicos, etc. Só assim conseguiremos passar todo esse conhecimento para a sociedade em geral.

 

COOL TALKS – Por Susana Ferraz, jornalista, assessora de comunicação integrada da GIZ_PBH (Sete Estrelas Comunicação).

 

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