Thiago Pietrobon é biólogo e doutor em biologia, diretor do Grupo Ecosuporte e consultor em Meio Ambiente. Nesta entrevista ele fala sobre a evolução da reciclagem e regeneração de fluidos refrigerantes no país e da sua participação em eventos ambientais, como a recente COP, em Belém-PA.
Por favor, fale um pouco sobre sua empresa e a importância de incentivar o recolhimento e a reciclagem de fluidos refrigerantes.
Iniciamos a Ecosuporte com foco na gestão ambiental para supermercados. Ao percebermos que o varejo era um grande gerador de fluidos refrigerantes e equipamentos obsoletos, expandimos nossa atuação para o setor de refrigeração. Na época, nós adquirimos todo um laboratório de uma empresa do Rio de Janeiro. Assim nasceu esse braço do nosso grupo para gerenciamento de resíduos da área de refrigeração.
Hoje pela ECOSUPORTE RESÍDUOS, fazemos a operação da gestão de resíduos de redes varejistas, na região de Campinas e São Paulo (capital). E pela CRA ECOSUPORTE – Central de Regeneração, Armazenamento e Análise de Fluidos Refrigerantes, operamos a gestão do ciclo de vida de gases e equipamentos de refrigeração e climatização, atendendo uma rede ampla de empresas no país, inclusive do Nordeste e Centro Oeste.
Na sua opinião, hoje os fluidos refrigerantes regenerados são bem aceitos pelo mercado?
Tempos atrás, os fluidos regenerados não eram tão bem aceitos, mas hoje já são. A demanda das empresas por este tipo de fluido aumentou muito. As empresas, como redes de varejo e instituições bancárias, estão buscando soluções mais completas e sustentáveis, para reduzir seus gastos e suas emissões de carbono. Elas querem um plano de sustentabilidade completo (logística reversa e economia circular) e é isso que fazemos. Na hora que mostramos o plano de sustentabilidade aos gestores, e que a decisão correta da empresa pode gerar valor compensativo, eles percebem as vantagens da reciclagem e da regeneração. Por exemplo, fazemos a seguinte comparação: deixar de rodar um caminhão por 4.000 quilômetros ou destinar corretamente o aparelho de ar condicionado queimado e seus fluidos refrigerantes.
Qual o maior desafio para aumentar a reciclagem de fluidos refrigerantes?
O grande desafio do país é aumentar a taxa de recolhimento. É garantir que todo o técnico/a faça de fato esse recolhimento dos fluidos. Já descobrimos que não é só uma questão de o/a técnico/a ter uma recolhedora. Uma rede de farmácia, por exemplo, fez a doação deste equipamento para os/as técnicos/as e a taxa de recolhimento não aumentou como desejavam. Estamos estudando esse caso, e já notamos algumas questões importantes. A conscientização dos/das técnicos/as da importância da reciclagem dos fluidos refrigerantes é uma delas. Outra questão importante é remunerar os/as técnicos/as pelo tempo que eles gastam com esse recolhimento, já que têm um determinado tempo para atender um contrato e precisam cumpri-lo. É por isso que hoje muitas recicladoras de fluidos refrigerantes, como nós, apostam na remuneração pelo fluido recebido. É o que tem dado melhor resultado.
Você já realizou importantes trabalhos no âmbito do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs (PBH)e do Programa Brasileiro de Redução do Consumo dos HFCs (objeto de recente consulta pública). Pode comentar a respeito?
Esses trabalhos de consultoria são parte importante da nossa atuação. Eu dou suporte às agências internacionais, como o PNUD e a GIZ, no âmbito do PBH, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Já participei de vários projetos. Atuei recentemente, por exemplo, na fase preparatória do Programa HFCs, realizando diagnósticos de mercado (Setor de Serviços) e uma análise geral, coordenando um grupo de especialistas. É um trabalho fantástico, que é muito interessante para mim, como profissional, e para minha empresa. Também estou prestando consultoria num projeto sobre eletrificação dos processos de aquecimento em indústria, do Ministério de Minas e Energia, onde bombas de calor podem ganhar protagonismo.
Você participou de diversas COPs, inclusive a última, realizada no Brasil e que foi denominada “COP da implementação”. Fale da evolução que notou durante as COPs.
Como diretor de meio ambiente da ABRAVA e dirigente do Departamento Nacional de Meio Ambiente da ABRAVA (DNMA), eu tenho acompanhados as COPs desde 2021. Destaco, que as discussões sobre a área de AVACR (Aquecimento, Ventilação, Ar Condicionado e Refrigeração) foram ganhando espaço nas COPs ao longo do tempo. As recentes projeções do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicam que a demanda global por refrigeração e ar-condicionado pode mais que triplicar até 2050. O alerta foi feito com o lançamento do relatório “Global Cooling Watch 2025” durante a COP30. Portanto, a gente tem de agir para que esse crescimento tão acelerado não gere impacto negativo no meio ambiente. Outro tema muito comentado é o da eficiência energética. Neste caso, durante as COPs foram criados compromissos ou metas de como crescer, mas sem impactar demais.
Portanto, em relação às COPs, eu vejo um avanço positivo. A cada nova edição da COP são acrescentadas novas informações, atualizações e realizados compromissos específicos, inclusive com o setor privado. Na última edição, em Belém, foi assinado o “compromisso calor extremo Belém”, que se refere ao Mutirão contra o Calor Extremo (Beat the Heat), uma iniciativa global para combater o calor urbano com ações como arborização, resfriamento passivo em prédios, uso de tecnologias eficientes e planejamento urbano resiliente. Foram criados grupos empresariais e planos com as prefeituras para poder discutir isso e tentar traduzir em ações no país. E, meu papel, foi garantir que o setor AVACR também faça parte dessas discussões.
Outro avanço importante, foi que pela primeira vez diferentes atores, membros da ONU, debateram sobre resfriamento (refrigeração e climatização) como direito humano básico, assim como água, energia e saneamento. É fundamental esse reconhecimento.
Na sua visão, qual a importância das iniciativas voltadas à maior utilização dos fluidos naturais no Brasil?
Essas iniciativas são muito importantes, pois tudo leva a crer que a maior utilização dos fluidos naturais é uma tendência irreversível. Do ponto de vista da evolução tecnológica, utilizar fluidos naturais é a opção mais duradoura para substituição dos fluidos refrigerantes. Não podemos dizer solução definitiva, porque a tecnologia evolui, mas que, com certeza, vai durar muito mais tempo do que todas as anteriores.
O MMA e a GIZ, no âmbito do PBH, já implementaram cursos de “Treinamento para Uso Seguro de Fluidos Inflamáveis em Sistemas de Ar Condicionado do Tipo Split” e “Treinamento para Uso Seguro de CO2 e HC-290 em Sistemas de Refrigeração Comercial”. Qual a importância destas ações na sua visão?
Essas ações de treinamento gratuitos são fundamentais. Existe todo um investimento do PBH em formação de multiplicadores e técnicos/as por todo o país. Além disso, o programa disponibiliza uma estrutura fixa que vai poder ser utilizada pelas escolas por anos.
A gente precisa incentivar a participação dos/as técnicos/as nesses treinamentos, porque eles trazem novos conhecimentos em relação ao que eles/elas estavam acostumados. Os fluidos refrigerantes mudaram. Hoje utilizamos mais fluidos que podem ser mais tóxicos, inflamáveis, e com pressão mais elevada. Isto exige incentivo para a adaptação dos/as técnicos/as a esse novo momento. Os profissionais precisam perceber que o treinamento fará a diferença na vida deles.
Eu acredito que a partir do momento que tivermos mais aparelhos de ar condicionado com propano, a qualidade da mão de obra em geral na climatização irá melhorar muito. A conscientização dos profissionais vai aumentar, e até dos consumidores.
Outro ponto essencial nessa questão da conscientização, será a certificação e registro dos profissionais (projeto do PBH que se inicia neste ano). Vai ser muito importante essa implementação, porque até hoje a prática comum do mercado é um técnico ensinar ao outro durante os trabalhos. Sem dúvida, a certificação e registro dos profissionais irá impactar positivamente o mercado e a vida de milhares de técnicos/as e ajudará a diminuir o impacto ambiental.
Por favor fale mais sobre a transição de fluidos, em especial sobre as primeiras ações efetivadas para a Implementação da Emenda de Kigali no país, com a redução dos HFCs?
Como consultor do Programa HFCs, o que nós percebemos no diagnóstico do mercado, que elaboramos, é que os equipamentos com menor carga já estão totalmente convertidos ou com seus caminhos definidos. O que a gente ainda precisa gastar ou investir mais energia, agora é nos equipamentos maiores, nos quais a carga de fluido refrigerante é maior. Mas até nessa área, temos observado mudanças positivas no sentido de reduzir as cargas. Hoje, a gente tem sistemas supercompactos, modulares, com cargas menores de propano, por exemplo, que consomem menos energia.
Destaco que neste programa todas as ações trazem enormes ganhos. O foco principal será a segurança, porque concluímos, no diagnóstico, que é nessa área em que se deve investir mais. Também teremos de evoluir para sistemas melhores, com fluidos naturais, evitando vazamentos, e isso também vai ajudar os sistemas a obterem melhor desempenho.
POR FAVOR COMPLEMENTE AS FRASES:
Eu gosto do meu trabalho… porque é muito gratificante ver o resultado, na prática, de como isso impacta a vida das pessoas
O principal desafio do Brasil para a implementação da emenda de Kigali… é a necessidade de mudança de cultura. É preciso que todas as partes envolvidas, do comércio ao usuário final, façam essa transição cultural.
A melhor oportunidade para aumentar a reciclagem de fluidos refrigerantes no Brasil… é a descarbonização. Quanto mais se percebe o valor da descarbonização, mais a reciclagem aumenta. As empresas estão cada vez mais atentas à questão da descarbonização, que envolve a questão dos insumos, do meio ambiente e da reciclagem.
COOL TALKS – Por Susana Ferraz, jornalista, assessora de comunicação integrada da GIZ_PBH (Sete Estrelas Comunicação).
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